sábado, 4 de outubro de 2008

Obama e a Mudança


Tenho certeza de que vocês, leitoras e leitores, são pessoas bem informadas. É por isso que escrevo este pequeno comentário sobre as eleições estadunidenses, que acontecerão mês que vem. Afinal, a eleição deles é importante para o mundo todo, por razões mais que óbvias.

Tava eu aqui hoje ouvindo o incrível novo disco de Paris, chamado Acid Reflex, e me veio a idéia deste artigo. No disco há uma música que trata deste mesmo assunto. No final do texto há um link pra esse som que me inspirou.

No mundo inteiro há uma repercussão surpreendente em torno do pleito, especialmente por ter, pela primeira vez, um negro concorrendo ao cargo mais importante do mundo. Fundamental dizer, com reais chances de vitória.

Barack Hussein Obama, filho de mãe branca (EUA) e pai africano (Quênia), senador americano e pastor protestante, tem amalgamado as esperanças de milhões, tanto nos EUA quanto nos outros 4/5 do mundo. Eu mesmo fiquei bastante esperançoso.

Barack é visto pela maioria como o cara da mudança, defensor da paz e dos direitos civis. Vai retirar as tropas estadunidenses do Iraque, vai reatar relações amistosas com Cuba e Coréia do Norte. Vai valorizar o papel da ONU na mediação de conflitos internacionais. Barack será o cara que mudará a ameriKKKa para sempre, arrancando o racismo e a hipocrisia de suas entranhas. Barack é herdeiro direto de Malcolm X, Patrice Lumumba, Martin Luther King e Betty Shabazz.

Será que é assim mesmo? Analisemos um fato que aconteceu há pouco tempo e que parece indicar algo um pouco diferente.

Outro pastor protestante, Jeremiah Wright, padrinho religioso de Barack Obama, serviu de instrumento para indicar que seu famoso pupilo provavelmente será mais do mesmo, mais outro presidente moderado, politicamente correto ao extremo, só que com toda a simbologia da negritude.

Você deve estar pensando: "véi, esse doido quer um Che Guevara na presidência da nação mais poderosa do planeta?" Claro que não. Só acho que o mundo tá cansado de gente moderada e politicamente correta demais.

Talvez alguns não tenham acompanhado os fatos, então vamos lá. Wright, brilhante orador protestante, estava pregando em sua igreja, que também é a igreja freqüentada por Obama, conclamando todos a votarem em Barack e a construírem uma nova era para os Estados Unidos depois do desastre do (des)governo Bush.

Alguém na platéia, sabendo da importância de Wright para Obama e para o processo eleitoral historicamente hipócrita americano, gravou todo o sermão e espalhou pelos quatro cantos. As palavras fortes de Wright se tornaram nitroglicerina pura na mídia branca estadunidense.


O sermão causou grande polêmica nos EUA, especialmente entre a classe média branca, de cujos votos os democratas dependem para ganhar a eleição.

Eis um trecho do que ele disse naquela fatídica noite (e que tá no som do Paris de que falei):

"(...) Aquilo que Malcolm X disse antes de ser afastado da Nação do Islã por Elijah Muhammad* era a mais pura verdade: o feitiço americano sempre vira contra o feiticeiro.

(*à época, Malcolm X não se indignou com o assassinato de Kennedy e disse à mídia que era um caso de "feitiço virando contra o feiticeiro")

Usando terror, nós tomamos este país dos índios Sioux, Apache, Arrowak, Comanche, Arapajo e Navajo. Terrorismo. Nós arrancamos africanos de seus países para facilitarem nossas vidas e os mantivemos escravizados e vivendo com medo. Terrorismo.

Nós bombardeamos Granada e matamos civis inocentes, bebês, cidadãos desarmados. Bombardeamos os negros da comunidade civil do Panamá com bombardeiros Stealth e matamos adolescentes indefesos, crianças, gestantes e pais de família. Bombardeamos a casa de Khadafi e matamos o filho dele.

Bombardeamos o Iraque, matamos civis desarmados em nome de nosso bem-estar. Bombardeamos aquela fábrica de remédios no Sudão para vingar o ataque à nossa Embaixada – matamos centenas de trabalhadores inocentes, pais e mães que saíram de casa naquele dia sem saberem que jamais retornariam.

Bombardeamos Hiroshima, bombardeamos Nagasaki e aniquilamos um número muito maior de pessoas do que aqueles milhares que morreram em Nova Iorque e no Pentágono. Jamais derramamos uma lágrima por causa disso. Crianças brincando nos parquinhos, mães buscando seus filhos na escola; civis, não eram soldados. Era gente do povo tentando levar seu dia-a-dia normalmente.

Apoiamos o terrorismo de estado contra Palestinos e negros da África do Sul. E agora ficamos indignados? Só porque tudo aquilo que fizemos na casa dos outros agora veio para as portas de nossas casas?

É o feitiço americano virando contra o feiticeiro.(...)”

Surpreso com alguma coisa que o inteligente e corajoso Wright falou? Tenho certeza da resposta. Mas Obama ficou, e muito. Condenou veementemente seu padrinho, criticando a virulência e o radicalismo da pregação. Apressou-se nas desculpas pela língua grande de seu mentor e acalmou a classe média americana.

As TVs de lá, especialmente Fox News, exibiram trechos deste discurso de Jeremiah Whright incansavelmente durante semanas, numa clara tentativa de destruir a candidatura de Obama.

Eis por que ele virou as costas para seu conselheiro, seu padrinho espiritual. Preferiu evitar o desgaste e preservar sua campanha. Assim como Elijah abandonou Malcolm, Obama abandonou Wright.

Pequena reflexão: Isso não te lembra de nosso presidente? Lembram-se da “Carta ao Povo Brasileiro”? A famosa "Carta de Rendição às Elites Brasileiras"?

O fato é que Obama diz um monte de coisas bonitas na TV, fala bem e encanta muita gente, mas dificilmente dirá verdades como Jeremiah teve a coragem de dizer. Jamais exorcizará esses fantasmas da política externa ameriKKKana. É o velho pragmatismo político moderado de centro-esquerda: parece ser melhor esquecer do que aprender com os erros do passado. Para ganhar eleição e poder, faz-se de tudo.

Talvez seja melhor para ele perder a eleição. Assim nos poupará da decepção, semelhante àquela que sentimos quando vimos Luiz Inácio e seus puxa-sacos se apavorarem com Heloísa Helena e seus seguidores.

Todos estamos cansados de saber que dizer a verdade e fazer o que deve ser feito incomoda às elites. E incomoda ainda mais aqueles que são subservientes e dependentes delas. O luxo e a bajulação, para alguns, se sobrepõem à coerência e à simplicidade. Vivo isso de perto, pode acreditar.

Frisando novamente, não seria melhor Obama perder? Porque só assim continuará a ser para muita gente esse ideal de liberdade e coragem. Se ganhar, sim, haverá um presidente negro nos EUA. Bacana pacas. Mas, talvez, seja apenas um democrata pragmático, moderado demais, ou seja, inútil na Casa Branca.

Ainda prefiro Lugo, Morales e Chavez. Falaram muito, ganharam no voto e estão fazendo, custe o que custar!


PS: Eis o link pro som do Paris do qual lhes falei.

O título é "The Violence of the Lambs" e está alicerçada numa música dos Commodores chamada "Cebu". Lembra-se de "Periferia Segue Sangrando"?

A letra original em inglês, que é a fala do Jeremiah, tá aqui:




"(...) What Malcolm X said when he got silenced by Elijah Muhammad was in fact true: America's chickens are coming home to roost.

We took this country, by terror, away from the Sioux, the Apache, the Arrowak (phonetic) the Comanche, the Arapajo, the Navajo. Terrorism. We took Africans from their country to build our way of ease and kept them enslaved and living in fear. Terrorism. We bombed Grenada and killed innocent civilians, babies, non-military personnel. We bombed the black civilian community of Panama with Stealth Bombers and killed unarmed teenagers, and toddlers, pregnant mothers and hard working father. [fullest voice] We bombed Khadafi’s home and killed his child.

We bombed Iraq, we killed unarmed civilians trying to make a living. We bombed the plant in Sudan to payback for the attack on our embassy -- killed hundreds of hard working people --mothers and fathers, who left home to go that day, not knowing they'd never get back home. [Even fuller voice] We bombed Hiroshima, we bombed Nagasaki, and we bombed far more than the thousands in New York and the Pentagon and we never batted an eye. Kids playing in the playground, mothers picking up children after school -- civilians not soldiers. People just trying to make it day by day. We have supported state terrorism against the Palestinians and Black South Africans and now we are indignant? Because the stuff we have done overseas is brought back into our own front yard!

America's chickens are coming home, to roost.(…)



Por: DJ TyDoZ
Postagem:Lukas Verissimo

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